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CPSIC/CMRV022 - SEMINÁRIO PRÁTICA PSICOLÓGICA II - Turma: 01 (2022.2)

Tópicos Aulas
Clínicas e afins: SENSIBILIDADE CLÍNICA: FALE COM ELA (17/11/2022 - 17/11/2022)

KUPERMANN, D. POR UMA OUTRA SENSIBILIDADE CLÍNICA: FALE COM ELA, DOUTOR!

https://labpsia.files.wordpress.com/2013/06/por-uma-outra-sensibilidade-clc3adnica.pdf

E como complementar, quem não viu ou queira rever, o lindo filme do Almodovar "Hable con ela"

Atuação psicossocial (24/11/2022 - 24/11/2022)

Para ter em mãos e lermos em aula:

LANCETTI, A. Síntese metodológica. In: JATENE, A.D.; LANCETTI, A; MATTO, S.A.F. Saúde loucura: saúde mental e saúde família. São Paulo: Hucitec, 2000.

https://drive.google.com/drive/folders/1bAgppkrngGCiwKHJ94Sk6KfyOnQ1oijG?usp=sharing

O brincar na clínica e na cultura (01/12/2022 - 12/01/2023)

Winnicott exerceu sua prática em “hospitais públicos, em consultório particular e em políticas de saúde mental britânicas durante cinquenta anos, chegando a conhecer milhares de crianças em estado de clínica, como dizia Deleuze, que o admirava”

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Winnicott, precocemente atento e consciente desse potencial epistemológico e proteico, gerador de novas performances e mundos teóricos psicanalíticos, realizou com sua pesquisa profunda, entre bebês e mães, em espaço social público muito comprometido com o Estado de bem-estar social inglês, ligado fortemente à política da vida social.

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Winnicott teve a sua visão reveladora de toda uma nova dimensão da experiência humana: como era possível que, para uma criança muito pequena, de dois, três ou quatro anos, uma boneca, um ursinho ou, ainda mais contra intuitivamente, um pequeno cobertor, tivessem o mesmo valor emocional do que tinha o vínculo humano original com os próprios pais? Como um pequeno objeto do mundo infantil se inscrevia na alma, na personalidade e na vida de uma criança, de forma tão especial, de modo a se tornar fundamentalmente importante, um objeto de amor intenso e de real referência para a própria existência? Afinal o que significava para a psicanálise a presença desses pequenos objetos de predileção radicais infantis, fundamento estético de um vínculo subjetivante, qual era a sua natureza psíquica, o seu estatuto simbólico, a sua função no desenvolvimento e na existência de uma criança?

... Winnicott chegava a um saber psicanalítico nunca antes pensado, aparentemente cotidiano e totalmente “normal” na vida de uma criança, cujas consequências para seu trabalho seriam definitivas, porque se tratava de uma dimensão real da constituição psíquica de uma criança que vinha a se tornar um si mesmo, um self, como na sua cultura inglesa de origem. Em 1951 ele escreveria “Objetos e fenômenos transicionais”, artigo que irrompe no novo campo, e que seria a base de tudo aquilo que, vinte anos depois, já em estilo tardio e muito livre, em O brincar e a realidade, ele desenvolveria como o campo da transicionalidade, a terceira zona da experiência humana, na qual os fenômenos de sentido têm existência em um lugar que não é de fato nem interno nem externo ao sujeito que o vive. Um lugar que, para existir, e dar existência, deve simplesmente ser vivido sem a cisão emocional e conceitual da pergunta: isso existe fora de você, ou isto foi criado por você? Winnicott estabeleceu um novo e interessante campo clínico, de caráter negativo em relação ao conceito e à ação psíquica de compreender e explicar, o tradicional trabalho de cisão conceitual com o objeto, em que certas perguntas simplesmente não deveriam ser feitas.

... experiência de um setting psicanalítico inventado e adaptado para o cuidado de bebês, e suas mães, no qual ele reinventou o instrumento médico da espátula de prata, para a observação das gargantas doentes, como um novo instrumento psicanalítico, da espátula ofertada ao bebê para ser devorada, sonhada e tornada jogo por ele; a experiência da observação conjunta da pulsação da vida emocional existente entre a mãe e o bebê em seu colo; a experiência do jogo do rabisco, que fazia emergir o campo da associação e da brincadeira entre o analista e a criança, a partir do espaço vazio da folha em branco, potencial, e do gesto original sem sentido de cada um, em que aspectos do inconsciente do analista faziam parte do mesmo espaço e jogo clínico que recebia pulsações inconscientes das meninas e dos meninos que viviam o jogo da vida como psicanálise, de Winnicott.

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experiências psicanalíticas abertas, ele viu crianças mais velhas regredirem e funcionarem como bebês para repararem sofrimentos mentais ou somáticos profundos, viu bebês em estado desolado de múltiplas convulsões cotidianas se curarem apenas por poder ficar livremente em seu colo, e morder seu dedo com a força que quisessem e necessitassem, “até quase tirar sangue”; viu meninos que lhe disseram, ampliando o saber psicanalítico desde a criança em um golpe: “por favor, Doutor, o senhor precisa me ajudar, minha mãe está sentindo uma dor em minha barriga”... E de todas essas experiências de constante criação, e de amor clínico por seus pacientes.

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Dessas condições, de permanente pesquisa clínica, observação de formas de sofrimento e de processos de transformação, de crianças e de suas mães, ele estruturou o seu campo de balizas teóricas, que desenvolveria ao longo de toda vida.

  1. Em primeiro lugar, o bebê humano era um feixe potencial de forças de vida, dentre as quais estavam bem incluídas as pulsões sexuais pré-genitais freudianas – “mas não sua pulsão de morte”, ele afirmaria com diferença e independência –, um conjunto de potencialidades em um processo complexo e rico de vir a ser, campo potencial não estruturado que deve ser vivido, e não determinado pelo outro.
  2. A situação originária do bebê é de dependência absoluta, o que é um dado ontológico fundamental, que significa que ele necessita de ações vindas do ambiente, da mãe, e seus auxiliares ou substitutos, para realizar o processo fundamental de diferenciação eu/outro, os princípios de percepção da própria existência e de traços da existência da realidade partilhada. Sendo inteiramente subjetivo na origem, e inteiramente dependente, o bebê não percebe aquilo que lhe é dado viver pelo cuidado da mãe como algo exterior a si próprio, de modo que vive por muito tempo um estado subjetivo de intensos acontecimentos amorosos, de sentido e de graça, as origens do sentido, realizadores da sua integração psicossomática, realizados na relação com a mãe e o ambiente cuidadosamente preparado para sua existência e sua performance criadora no próprio sentido. Tudo que o bebê vive do trabalho necessário que se deve fazer por ele, o trabalho da “devoção materna primária” – e o elemento de tonalidade poética de fundo, teológico, aqui importa –, ele vive como advindo dele próprio, e não do outro, em um processo imanente fundamental do gesto de sentido, mas no qual o mundo está lá, processo de valor emocional que preencherá posteriormente o sentido das palavras e da vida da cultura.
    1. c.       Por fim, no paradoxo de ser cuidado e viver o cuidado, a presença do outro como sendo ele próprio, surgirão as condições para as criações dos sentidos “estruturados” fundamentais da criança, o momento do desenvolvimento em que acontecem os objetos e os fenômenos transicionais, em que o gesto de um bebê inscreve no próprio self a experiência criada de algo recortado da realidade externa genérica, que ele então sente como tendo sido criado totalmente por ele. O objeto transicional, como expansão e complexificação da relação original de continuidade e trabalho de diminuição das tensões, realizados pela mãe, mantém em um outro nível de vínculo a continuidade da relação subjetiva com as coisas e o mundo, mas é um objeto que começa a ser testado, usado intensamente e concebido gradativamente como objetivamente percebido.
 

 

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primeira possessão não eu”, diz Winnicott, e tem estatuto simbólico paradoxal, que não deve ser quebrado por um erro conceitual excessivo do observador externo, de existir objetivamente, mas deve ter seu conteúdo preenchido livremente pela criança, sendo objeto para ela e objeto que a completa e dá continuidade ou, simplesmente, é ela. Ele será a base do brincar futuro. As forças que darão sentido singular para o fenômeno transicional são as mesmas que darão sentido, e serão preenchidas com o próprio mundo de objetos, para o sonhar freudiano original da psicanálise, também ele um mundo de objetos existentes, mas concebidos subjetivamente pelo sonhador. (...) De fato, Winnicott definiu em algum lugar a psicanálise como um modo muito avançado que o século 20 inventou de brincar. Para Winnicott a descoberta da lógica paradoxal da existência nem dentro nem fora do campo da transicionalidade subjetivante do pequeno humano, do fundamento ontológico do gesto de criação primeiro, que cria a cultura e define as condições de existência ao mesmo tempo, resolvia o problema teórico clássico psicanalítico do advento da sublimação cultural das forças sexuais primárias, pensado por Freud por toda a vida.

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Dentre muitos problemas novos a respeito da integridade do núcleo operador contínuo do self, que ele identificou clinicamente, destaco três “zonas”...

  1. Primeiro, o fato de que o humano é fundamentalmente um ser de criação, que é o valor mesmo da experiência de emergir no campo dos sentidos, o gesto de existir na ação de afeto sentido, mantendo a conexão subjetiva e emocional, o valor de toda ordem simbólica que nos torna humanos.
  2. Segundo, que o ser humano é originalmente ético-político, imbricado, comprometido, desde sempre, de modo que não existe humanidade fora dos direitos humanos, e o direito humano fundamental é o reconhecimento, a existência mútua, em um espaço onde todos, mais fortes ou mais fracos, mais maduros ou iniciantes na jornada humana, são e existem para a humanidade, necessitam e merecem o compromisso.
  3. Terceiro, que o mundo dos símbolos é muito mais complexo do que a cisão conceitual adulta entre significante e significado dá a entender, que ele tem origem e se fundamenta em um objeto sentido que é ao mesmo tempo altamente subjetivo e culturalmente partilhável. Significação e significado são subsumidos ao ato de criá-los, uma revelação erótica do humano para si próprio. Assim, essa ordem nova da vida do sentido em Winnicott cria o campo estético da fruição da existência, onde arte e religiões tiram grande parte de suas forças, um mundo que suspende e renova a ordem operativa objetivante da consciência, e mesmo da razão, tão tipicamente ocidental. O mundo psicanalítico de Winnicott desloca a estruturação metafísica a que estamos acostumados, na qual os bebês podem por fim adentrar, ele pensa, mas de onde eles não vêm.

possível intuir a importância política e social destas três zonas do sentido humano e psicanalítico que nos foram legadas por Winnicott:

  1. autonomia, que não cinde saber e experiência, prazer e desenvolvimento;
  2. compromisso mútuo, que implica politicamente o ato de receber e de reconhecer a humanidade existente, para que ela exista e venha a existir; e
  3. surpresa do sentido do que nos toca de fato, mas que nos escapa, como parte essencial do próprio valor da experiência.

... [[pequenos aforismas ético-clínicos:

“quando uma criança chega sonhando e vai embora sonhando, é preciso não atrapalhar o sonho delas”.

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Para compreender uma realidade, é necessário poder acessá-la. É necessário falar ou criar um idioma que tenha a ver com ela, para traduzi-la e transmiti-la.

 

Ø  A estética dos bebês e o direito à cultura - Amanda de Oliveira Mota

 

Winnicott e a clínica estética dos objetos e fenômenos transicionais

 

Chamemos a atenção para uma qualidade especial desse ponto de vista do bebê, que são as qualidades estéticas constituintes de tal experiência. Antes de um bebê aprender a falar, ele se comunica de muitas outras formas, por meio do seu corpo: visualidade, ritmos corpóreos, tons musicais dos sons. Os sorrisos e olhares dos bebês parecem condensados de sentidos, que encantam e por vezes assustam. Seus balbucios e gestos são expressivos. Além disso, o bebê também elege objetos ou fenômenos que adquirem um valor psíquico especial, por evocarem as qualidades do amor e da familiaridade.

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objetos e fenômenos, que têm o enigmático poder de deixar as crianças seguras. Winnicott os denominou de objetos e fenômenos transicionais, por ocuparem um lugar da experiência que é sentida pela criança como uma experiência interna e externa ao mesmo tempo, uma experiência entre o eu e mundo. No objeto habitam ao mesmo tempo um pedacinho do ser da criança, um pedacinho de sua mãe ou outros cuidadores especiais e um pedacinho do mundo que pôde tornar-se dela. Winnicott demonstra que há qualidades estéticas nessas experiências e em todas as relações do self com o mundo. Qualidades da ordem das formas e não dos conteúdos, que passam pelo campo da sensorialidade, ao mesmo tempo que possuem sentidos psíquicos. Padrões pessoais são criados: enquanto um bebê vive uma experiência sentindo a textura ao puxar um fio solto de sua manta, o outro pode experimentar enrolar a fralda nos dedinhos enquanto mama. Uma criança ama cavalos e outra fica apaixonada por super-heróis.

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A eleição de objetos e fenômenos sensoriais especiais, que nos trazem um forte sentido pessoal e de familiaridade com o mundo, nos acompanha durante toda a vida e enriquece a experiência humana.

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nem tudo se escuta no mundo da linguagem e dos significantes que revelam o inconsciente por meio da associação livre de palavras. Muitas das coisas importantes que os pacientes comunicam precisam ser vistas ou reverberadas por meio das sensações do corpo. Um bebê pequeno ainda não fala. Mas demonstra em imagens e gestos corpóreos

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para fazer isto, o bebê já precisa saber que é alguém [a individuação é condição de possibilidade, cauciona, a produção de objetos e a vivência de fenômenos transicionais], que pode se esconder e ser encontrado. Algo dessa qualidade estética está presente no humano do começo ao fim da vida. Uma dimensão da vida psíquica acontece por gestos, imagens e sensações. E mesmo depois de adquirida a linguagem, tal dimensão pode também habitá-la, sob a forma da poesia.

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Winnicott inventou modos de ver ou convidar os gestos e imagens para habitarem a clínica.

... Percebeu que uma criança saudável tendia a hesitar por um momento, depois levar a espátula à boca, inventar brincadeiras com ela e depois desprezá-la, interessando-se por outros objetos. Essa situação simples abriu o campo para ele pensar sobre o que chamou de experiência total e que inclui três momentos: hesitação, uso e abandono do objeto.

... Winnicott pedia aos seus pequenos pacientes que desenhassem os seus sonhos. Observou que alguns sintomas somáticos das crianças ocorriam devido a sonhos mal sonhados, que, quando desenhados, faziam sumir os sintomas. Mais tarde, inventou um modo de sonhar a dois, por meio de um jogo de desenhos, que chamou de jogo do rabisco. Nele, o analista e a criança se revezam na tarefa de completar rabiscos feitos pelo outro, de modo livre. Por meio de imagens, os rabiscos comunicam o mundo psíquico da criança, que vai sendo brincado, transformado, recebido.

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“Cada relato destas sessões de desenhos com as crianças exemplifica bem seu conceito tão bonito de espaço potencial – um conceito essencialmente pictórico, ainda que ele o defina como ‘aquilo que acontece entre duas pessoas quando há confiança e segurança’”. Eis alguns aspectos da clínica estética de Winnicott. ... A experiência estética possui para os autores dessa escola um aspecto corporal

Frequências da Turma
# Matrícula NOV DEZ JAN FEV MAR Total
17 24 01 08 15 22 29 05 12 19 26 02 09 16 23 02 09 16 23 30
1 2018902**** 4 0 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0 4 0 2 0 14
2 2017902**** 4 0 0 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 4 0 0 0 0 0 12
3 2017913**** 4 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 4 0 0 0 0 0 0 0 0 12
4 2016900**** 0 0 0 0 0 0 0 4 4 0 2 4 0 0 0 0 0 0 0 0 14
5 2017914**** 4 0 4 0 0 0 0 0 0 4 2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 14
6 2018900**** 0 0 2 0 0 0 0 0 0 1 0 0 0 4 0 0 0 4 0 0 11
7 2018902**** 4 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 8
8 2018901**** 0 0 2 0 0 0 0 0 0 4 0 4 0 0 0 0 0 0 0 0 10
9 2018901**** 4 0 4 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 12
10 2017913**** 4 0 0 0 0 0 0 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 56
11 2018901**** 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 8
12 2018902**** 0 0 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 4 0 0 0 0 0 0 8
Notas da Turma
# Matrícula Unid. 1 Unid. 2 Unid. 3 Prova Final Resultado Faltas Situação
1 2018902**** 10,0 10,0 10,0 10.0 0 AM
2 2018901**** 10,0 10,0 10,0 10.0 0 AM
3 2017913**** 0,0 0,0 0,0 0.0 0 RN
4 2018901**** 10,0 10,0 10,0 10.0 0 AM
5 2018901**** 10,0 10,0 10,0 10.0 0 AM
6 2018902**** 10,0 10,0 9,0 9.7 0 AM
7 2018900**** 10,0 9,0 9,0 9.3 0 AM
8 2017914**** 10,0 9,0 9,0 9.3 0 AM
9 2016900**** 9,0 9,0 9,0 9.0 0 AM
10 2017913**** 10,0 9,0 9,0 9.3 0 AM
11 2017902**** 10,0 9,0 9,0 9.3 0 AM
12 2018902**** 10,0 9,0 9,0 9.3 0 AM

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Data
Primeiro seminário/estágio 16/11/2022

SIGAA | Superintendência de Tecnologia da Informação - STI/UFPI - (86) 3215-1124 | sigjb15.ufpi.br.instancia1 vSIGAA_3.12.1590 06/04/2026 07:13