Avaliações e Instruções para a confecção do diário cartográfico de notas intensivas: (17/10/2023 - 30/01/2024)
Os relatórios podem ser feitos por campo, coletivamente.
Assim, as notas serão dadas por equipe de campo.
Os diários de notas intensivas são individuais e dizem da experiência geral do estágio.
Instruções para a confecção do diário cartográfico de notas intensivas:
Os diários de campo são dispositivos de suporte para a pesquisa. Consistem em “fonte legítima de informação” (Minayo, 2009, p. 624), como estratégia de produção de dados.
Já os diários cartográficos de notas intensivas respondem à necessidade de necessidade de acompanhar os fluxos da invenção da realidade, de habitar diferentes territórios, em contato direto e cultivando convivência com sujeitos em seus territórios existenciais.
Diferentemente da observação sistemática, que pressupõe o distanciamento entre sujeito-observador e campo ou objeto, e da observação participante – que parte da necessidade de imersão do pesquisador no campo, no contexto ou no grupo – os diários cartográficos de notas intensivas estão mais próximos da participação observante.
Visam compreender as relações e os significados, nos movimentos de diferenciação e singularização que emergem em cada contexto social, atentando também às semióticas a-significantes, aos encontros e relações não-humanas. Daí advém seu caráter experiencial, onde se registra trajetos, encontros, acontecimentos que se presencia, ou dos quais se participa, observações, sentimentos, afetos, as rarefações e umidades dos percursos e qualquer coisa o que vier à tona e convoque a atenção cartográfica. O diário pode ser feito como uma cartografia de narrativas, mesclando oralidade e escrita de si, na perspectiva foucaultiana do dizer verdadeiro, da coragem da verdade, e serve à reconstituição da composição das diversas paisagens psicossociais. Neste âmbito, Pozzana e Kastrup (2009) comentam que, a depender do grau de envolvimento do pesquisador, seu papel em campo vai de observador-participante a participante-observador.
O diário cartográfico pode ser entendido a partir da criação singular de determinada realidade, produzindo novas possibilidades de ver e dizer para os acontecimentos e afecções que se estabelecem na produção da vida, dos afetos e das práticas (Deleuze; Guattari, 1995). Na cartografia, a abertura para o encontro é fundamental para dar novo sentido aos acontecimentos e as afetações do cotidiano do trabalho e da vida. Já a caixa de afecções, tem como proposta dar suporte à construção do diário cartográfico. A ideia é de uma caixa de afetos, onde são colocados, objetos, músicas, textos, enfim, o que nos afeta no cotidiano e que produz algum sentido.
O fundamental é que as narrativas em forma de diário “revelam as implicações do pesquisador e realizam restituições insuportáveis à instituição científica. Falam sobre a vivência do campo cotidiana e mostram como, realmente, se faz a pesquisa" (Lourau, 1993, p.72).
Realizar um diário de notas intensivas não é falar de... mas falar com...
Nas notas intensivas, o relato não tem mais a ver com saber sobre, pois se trata de saber com. Se colocar ao lado da experiência, talvez alguma coisa que não seja bem o que se esperava surgir ali. Faltam gaze, luvas e foco? Mas e aquele atendimento preventivo feito com a luz do celular em uma usuária que não poderia voltar em outro momento? Como é acompanhar a profissional ao fazer o curativo na criança que parece mais tranquila que a mãe? Como é ver aquela idosa que cuida de outro idoso cadeirante e de um neste em situação de sofrimento psíquico? Aquilo que talvez seus colegas e/ou os profissionais não tenham se atinado, não tenham percebido no calor e na correria do cotidiano.
O que experimentar com aqueles cheiros, encontros, sensações, o que eles te convidam a pensar? Entender que os encontros são um convite, saímos transformados de cada encontro, mesmo que nada se passe de visível, saímos transformados no tempo, ganhamos tempo nos encontros, ganhamos um pouco mais de tempo em cada encontro.
Tudo o que não invento é falso (Manoel Barros): O que é inventado em cada ida ao campo e nos encontros que se dão nestas visitas?
Quem está ao redor quer dizer por. Quer dizer “por quês”. Quer dizer de. Quer saber o quê.
Quais são as palavras que vestem um encontro, uma situação vivenciada no campo? Aquilo que talvez seja difícil de colocar em palavras, mas que – convidamos a vocês – vale o esforço. Aquilo que agita e perturba um certo estado de coisas, que inventa um problema.
“A ativação de uma atenção à espreita – flutuante, concentrada e aberta (...) entendida como um músculo que se exercita e sua abertura precisa sempre ser reativada, sem jamais estar garantida. (...) é a busca reiterada de um tônus atencional, que evita dois extremos: o relaxamento passivo e a rigidez controlada” (Kastrup, 2009, p. 48).
Usar sua presença e sua atenção para estranhar o que talvez apareça e pareça aos demais como natural.
Onde você se pergunta “por quê?” – por que isto é assim ou assado – substitua pela pergunta “Como?”. Como funciona? Como é que lhe parece?
DELEUZE, G. & GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
KASTRUP, V. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade (pp. 32-51). Porto Alegre: Sulina, 2009.
LOURAU, R. Análise institucional práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ, 1993.
MINAYO, M. C. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. Rio de Janeiro: Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 3. 2009.
POZZANA, L. & KASTRUP, V. Cartografar é acompanhar processos. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (org.) Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.
Uma boa fonte de inspiração pode ser apreciada no Prólogo de Ana Maria Gonçalves:
GONÇALVES, A. M. Prólogo. In: Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2013.
https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1154/o/Ana_Maria_Goncalves_-_Um_Defeito_de_Cor.pdf?1599239000